Capitalismo Anti-Racista: Uma Obra de Ficção

 

                                                                               Hugo Pires 
Licenciado em Ciência Política e Relações Internacionais
Mestrando em Políticas Públicas (ISCTE) 

hugocarvalhopires@gmail.com

As opiniões expostas neste artigo vinculam exclusivamente os seus autores.


A morte de George Floyd, um negro, tornou-se mais um símbolo contra a brutalidade policial e preconizou a escalada de protestos do movimento BlackLivesMatter. Em junho, em Portugal e no espaço euro-atlântico inteiro, em modo de protesto pacífico, as massas insurgiram-se com o duplo objetivo de luto e denúncia da ação policial. Muitos reduzirão a esfera do acontecimento aos EUA, porque “Portugal é diferente.". Contemos quantos George Floyds portugueses já sofreram nas mãos dos detentores do “monopólio legítimo da violência”? Não vale a pena, pois cedo se lhes soltaram os cordões e, no final de julho, Bruno Candé foi trucidado em plena luz do dia, desta vez em Portugal. Mais um assassinato com motivações racistas. Mas agora o universo reducionista muda o discurso e a preocupação é agora marcada por uma corrida desenfreada para encontrar algo que pudesse justificar as motivações para a sua morte, de modo descredibilizar, e excluir o preconceito racista deste assassinato. 

 Para dar o pontapé de entrada, convém percebermos o que a luta antirracista é, e as suas nuances. Podemos começar pela abolição do mito do "bom colonizador". Do mito “Portugal não foi tão mau quanto outros países colonizadores”. 

Dizer que não somos como os britânicos, holandeses e espanhóis não passa de uma narrativa vazia de conteúdo e é aí que reside o verdadeiro excepcionalismo do colonialismo português – o seu branqueamento. A reflexão é simples: continuemos a perpetuar o branqueamento das atrocidades cometidas no passado ou tomamos a (ousada) decisão de reconhecer final e oficialmente a necessidade de um ensino reformulado, livre de opressões e descolonizado, que explique a realidade dos “Descobrimentos”, o tráfico transatlântico de modo tão atroz quanto o foram os crimes, a escravatura e o colonialismo, passando às gerações seguintes a memória de um passado cruel e a esperança de um futuro corretivo? A abolição da escravatura em território nacional remonta ao século XV e o que alguns portugueses parecem esquecer é que a escravatura continuou além-metrópole, nas “províncias ultramarinas” sob a carta lusotropicalista. Estes são os pilares do racismo sistémico e estrutural que assola a sociedade portuguesa. 

Depois, passemos para o plano legislativo e a ação política, para o “topo” da hierarquia política. Os nossos atores políticos, como Rui Rio, afirmando que "ainda ficamos racistas com tantas manifestações anti-racistas.", e André Ventura, que sugere a “devolução” de uma deputada negra à “sua terra”, como se de mercadoria se tratasse, são diferentes na estética mas idênticos na essência: um nega a existência de racismo estrutural na sociedade portuguesa, e o outro limita-se a ser o mais transparente possível no seu nacionalismo exacerbado. Do outro lado da esfera, o secretário geral do PCP, Jerónimo de Sousa, transferiu a culpa do sistema para o indivíduo, afirmando que a maioria dos portugueses não são racistas. O que falta é evidente: uma análise material, histórica e profunda do racismo como um fenómeno intrínseco à sociedade portuguesa e ao passado que herdou.

Como escreveu Isabel Moreira, em Outubro de 2019, "O campeonato de que sociedade é mais ou menos racista não faz sentido. Todas as sociedades que participaram do processo colonial ou dele beneficiaram são-no. É estrutural e histórico.". Quanto mais depressa se perceber isto, mais depressa caminhamos para a luta.

Por último, tudo se converge no mote: a luta antirracista é uma luta anti-capitalista. Quando ativistas negros começaram a apresentar o mundo através de uma lente pós-colonial, os burgueses supremacistas brancos saltaram das tocas onde estavam escondidos com a sua perspectiva de dominação branca sobre o mundo ocidental, reagindo com políticas neoliberais que prejudicaram, incontestavelmente as classes racializadas, mas agora com a nova desculpa de que a desigualdade era natural. Neste sentido, seria desonesto não ligar o tráfico transatlântico ao surgimento do capitalismo. Teóricos ancorados à economia política marxista argumentam que o capitalismo é sustentado pela escravatura, sendo a última o estágio mais elevado do primeiro. Os EUA, por exemplo, foram sustentados por força de trabalho escrava, porque só assim obteriam capital suficiente para adquirir novas terras e perpetuar uma acumulação de capital linear e longínqua. Foi também neste panorama que, no mundo ocidental, as pessoas racializadas foram “manietadas” (bem sei que o verbo é forte, mas é a realidade) pelos capitalistas que, por outro lado, exploraram o desemprego e a miséria e fomentaram a hostilidade da classe trabalhadora branca contra a população e classe trabalhadora negra. É a partir desta situação, por eles [i.e. capitalistas] criada, que os capitalistas extraem valor. Os antagonismos de classe estão aqui.

Seria possível existir capitalismo sem colonialismo, escravatura ou racismo? Não foi isso que aconteceu, portanto não entrarei em conversas ficcionais. E para histórias ficcionais posso aconselhar o elefante Elmer. O que posso dizer é que o racismo não é um fenómeno exógeno ao capitalismo, mas inerente ao seu próprio desenvolvimento. É a história e não estamos para revisionismos. Assim sendo, penso ser inútil fazer uma luta (ou análise) antirracista sem consciência de classe e sem uma confrontação directa ao capitalismo, já que é este o responsável pela marginalização de pessoas racializadas e pela perpetuação do racismo nas sociedades. Luta anti-racista sem luta anti-capitalista é activismo de circunstância, que de nada serve no combate a um problema estrutural da sociedade portuguesa.

Para terminar, faço minhas as palavras da deputada negra Beatriz Dias, “A exploração laboral das pessoas racializadas é parte integrante da exploração capitalista que garante a riqueza de um pequeno número de pessoas contra a exploração de muitos outros.”.


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