A Instrumentalização da Moda no Fascismo Italiano


A Instrumentalização da Moda no Fascismo Italiano

Mafalda Pereira e Petra Gonçalves

O corpo, a moda e a imagem da mulher assumiram papéis centrais na construção simbólica e ideológica do regime de Benito Mussolini. Sob o seu comando, o fascismo procurou moldar não apenas a política e a economia, mas também o quotidiano e a aparência dos cidadãos, transformando o corpo individual num instrumento de propaganda e de disciplina social. A estética, a indumentária e os comportamentos corporais tornaram-se extensões do projeto nacionalista, que almejava uma Itália forte, autossuficiente e unida sob a figura do Duce. Neste contexto, o corpo foi convertido em território político, a mulher em emblema da Pátria e a moda em veículo de afirmação autárquica e cultural, compondo um sistema simbólico que visava dissolver a individualidade em prol da coletividade e da Nação.


Foi neste contexto político que a moda italiana se tornou uma parte relevante dentro do projeto autárquico e nacionalista que pretendia libertar o país da dependência económica e cultural do estrangeiro, especialmente da francesa. A política da autarcia – autossuficiência económica e independência face ao apoio externo – originou também uma tentativa de criar uma moda totalmente estatal, capaz de expressar o seu orgulho e valores. A roupa, tal como outras secções da vida quotidiana, passou a ser um meio de propaganda e obediência.


Em 1932, foi criado o Ente Nazionale della Moda (ENM), uma instituição encarregada de organizar e promover a produção nacional de vestuário. Com o objetivo principal de construir um sistema de moda “moralmente fascista” e economicamente independente, supervisionava todo o processo, desde a sua parte criativa até à produção. Para além disso, promovia exposições e desfiles com peças inspiradas nas tradições regionais italianas, valorizando o folclore e o artesanato (bordados, rendas, palhas), de forma a exaltar a italianità – a essência cultural da nação.


Esta política tinha também uma dimensão linguística e simbólica, já que o regime procurava eliminar a influência de França, ideologicamente oposta. Em 1936, o jornalista Cesare Meano publicou, sob a tutela do ENM, o Commentario dizionario Italiano della moda, com a intenção de mudar o vocabulário anteriormente utilizado e onde prevaleciam os termos franceses. Esta “italianização” reforçava, assim, a mensagem de autossuficiência cultural, ou seja, vestir-se de forma era um gesto patriótico, uma forma de resistência ao cosmopolitismo e à modernidade proveniente do estrangeiro. No entanto, esta mesma política revelava contradições, visto que, apesar da retórica autárquica, muitas casas de moda continuavam a inspirar-se em Paris, adaptando modelos franceses e atribuindo-lhes nomes italianos para aparentar autenticidade. Este paradoxo demonstra, nada mais nada menos, que as tentativas de uniformizar o gosto e eliminar a influência de fora tiveram sucesso apenas “ao nível do espetáculo e da propaganda”, sem transformar, de facto, as estruturas sociais e económicas.




A autarcia na moda refletia o princípio mais amplo desta ideologia – servir a Nação e ao Duce. Desta maneira, o ato de consumir e de escolher o que vestir deixou de ser uma expressão individual e tornou-se um dever moral e político, disfarçado de uma suposta harmonia coletiva. Ademais, o consumo excessivo, associado à burguesia e ao prazer, era condenado como sinal de materialismo e decadência, denegrindo a imagem do sacrifício em nome da ordem do regime.


Segundo Falasca-Zamponi, o regime fascista italiano considerava o corpo individual como algo a ser moldado. Assim, procurou estratégias que tinham o intuito de fazer com que o cidadão individual se sentisse parte de um coletivo e com um propósito próprio de servir a Nação.


O documentário L'adunata delle donne fasciste retrata um desfile que ocorreu em Roma em 1939. Duas tipologias distintas da “mulher fascista italiana” aparecem retratadas neste documentário. No entanto, após uma análise mais profunda compreendemos a semelhança em cada um dos seus propósitos e em como estes beneficiam o regime italiano da época.


Mussolini utilizou a imagem da mulher para promover um sentido de união e grandiosidade dentro do regime – desde a mulher moderna, de postura rígida e associada às áreas desportivas ou militares, representada com uniformes elegantes e formais, até ao seu oposto, a mulher rural e tradicional. Em última instância, ambas as figuras de um ideal feminino, por mais opostas e ambivalentes que se apresentem, remetem para uma missão de exaltação da Pátria – quer pela apreciação que era dada à génese e à tradição italianas, quer pela disciplina e pela compostura de cariz militar e atlético que simbolizam a sua dedicação à Pátria. Esta estratégia procurou unir diferentes domínios e camadas populacionais em torno da Nação através da mulher: o passado tradicionalista e o futuro revolucionário, as diversas regiões da Itália com as suas particularidades, e as diferentes classes socioeconómicas, das mais abastadas e opulentas às mais carenciadas e simples.


Por fim, a moda fascista italiana foi muito mais do que uma questão de estilo: foi uma linguagem política que carregou consigo uma forte ideologia. Através desta, o regime procurou unificar a população, transformando a mulher num símbolo da Nação – mãe, trabalhadora e patriota –, convertendo o vestuário num dever moral. Simultaneamente, o projeto autárquico tentou criar uma moda puramente italiana, de forma a exaltar o orgulho nacional e o consumo interno. Contudo, entre a disciplina e a ambição, entre o controlo e a criatividade, o fascismo encontrou os limites do seu poder: a moda nunca foi totalmente domesticada, e foi precisamente desta tensão que nasceu, mais tarde, a força e a identidade da moda italiana.



Referências:


Falasca-Zamponi, S. (2008). Fascism and Aesthetics.

L'adunata delle donne fasciste (1939). [Filme]. Itália.

Paulicelli, E. (2002). Fashion, the Politics of Style and National Identity in Pre-Fascist and Fascist Italy.

Vaccari, A. (2017). MODA NA AUTARQUIA: POLÍTICAS DE MODA NA ITÁLIA FASCISTA NOS ANOS 1930.

Willson, P. (2022). White blouses in the blackshirt nation: women and uniforms in Fascist italy.doi:10.1080/09612025.2022.2055272

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