A Instrumentalização da Moda no Fascismo Italiano
O corpo, a moda e a imagem da mulher assumiram papéis centrais na construção simbólica e
ideológica do regime de Benito Mussolini. Sob o seu comando, o fascismo procurou moldar não
apenas a política e a economia, mas também o quotidiano e a aparência dos cidadãos, transformando
o corpo individual num instrumento de propaganda e de disciplina social. A estética, a indumentária
e os comportamentos corporais tornaram-se extensões do projeto nacionalista, que almejava uma
Itália forte, autossuficiente e unida sob a figura do Duce. Neste contexto, o corpo foi convertido em
território político, a mulher em emblema da Pátria e a moda em veículo de afirmação autárquica e
cultural, compondo um sistema simbólico que visava dissolver a individualidade em prol da
coletividade e da Nação.
Foi neste contexto político que a moda italiana se tornou uma parte relevante dentro do projeto
autárquico e nacionalista que pretendia libertar o país da dependência económica e cultural do
estrangeiro, especialmente da francesa. A política da autarcia – autossuficiência económica e
independência face ao apoio externo – originou também uma tentativa de criar uma moda totalmente
estatal, capaz de expressar o seu orgulho e valores. A roupa, tal como outras secções da vida
quotidiana, passou a ser um meio de propaganda e obediência.
Em 1932, foi criado o Ente Nazionale della Moda (ENM), uma instituição encarregada de
organizar e promover a produção nacional de vestuário. Com o objetivo principal de construir um
sistema de moda “moralmente fascista” e economicamente independente, supervisionava todo o
processo, desde a sua parte criativa até à produção. Para além disso, promovia exposições e desfiles
com peças inspiradas nas tradições regionais italianas, valorizando o folclore e o artesanato
(bordados, rendas, palhas), de forma a exaltar a italianità – a essência cultural da nação.
Esta política tinha também uma dimensão linguística e simbólica, já que o regime procurava
eliminar a influência de França, ideologicamente oposta. Em 1936, o jornalista Cesare Meano
publicou, sob a tutela do ENM, o Commentario dizionario Italiano della moda, com a intenção de
mudar o vocabulário anteriormente utilizado e onde prevaleciam os termos franceses. Esta
“italianização” reforçava, assim, a mensagem de autossuficiência cultural, ou seja, vestir-se de
forma era um gesto patriótico, uma forma de resistência ao cosmopolitismo e à modernidade
proveniente do estrangeiro. No entanto, esta mesma política revelava contradições, visto que,
apesar da retórica autárquica, muitas casas de moda continuavam a inspirar-se em Paris, adaptando
modelos franceses e atribuindo-lhes nomes italianos para aparentar autenticidade. Este paradoxo
demonstra, nada mais nada menos, que as tentativas de uniformizar o gosto e eliminar a influência
de fora tiveram sucesso apenas “ao nível do espetáculo e da propaganda”, sem transformar, de facto, as estruturas sociais e económicas.
A autarcia na moda refletia o princípio mais amplo desta ideologia – servir a Nação e ao Duce.
Desta maneira, o ato de consumir e de escolher o que vestir deixou de ser uma expressão individual
e tornou-se um dever moral e político, disfarçado de uma suposta harmonia coletiva. Ademais, o
consumo excessivo, associado à burguesia e ao prazer, era condenado como sinal de materialismo e
decadência, denegrindo a imagem do sacrifício em nome da ordem do regime.
Segundo Falasca-Zamponi, o regime fascista italiano considerava o corpo individual como algo
a ser moldado. Assim, procurou estratégias que tinham o intuito de fazer com que o cidadão
individual se sentisse parte de um coletivo e com um propósito próprio de servir a Nação.
O documentário L'adunata delle donne fasciste retrata um desfile que ocorreu em Roma em
1939. Duas tipologias distintas da “mulher fascista italiana” aparecem retratadas neste
documentário. No entanto, após uma análise mais profunda compreendemos a semelhança em cada
um dos seus propósitos e em como estes beneficiam o regime italiano da época.
Mussolini utilizou a imagem da mulher para promover um sentido de união e grandiosidade
dentro do regime – desde a mulher moderna, de postura rígida e associada às áreas desportivas ou
militares, representada com uniformes elegantes e formais, até ao seu oposto, a mulher rural e
tradicional. Em última instância, ambas as figuras de um ideal feminino, por mais opostas e
ambivalentes que se apresentem, remetem para uma missão de exaltação da Pátria – quer pela
apreciação que era dada à génese e à tradição italianas, quer pela disciplina e pela compostura de
cariz militar e atlético que simbolizam a sua dedicação à Pátria. Esta estratégia procurou unir
diferentes domínios e camadas populacionais em torno da Nação através da mulher: o passado
tradicionalista e o futuro revolucionário, as diversas regiões da Itália com as suas particularidades, e
as diferentes classes socioeconómicas, das mais abastadas e opulentas às mais carenciadas e simples.
Por fim, a moda fascista italiana foi muito mais do que uma questão de estilo: foi uma
linguagem política que carregou consigo uma forte ideologia. Através desta, o regime procurou
unificar a população, transformando a mulher num símbolo da Nação – mãe, trabalhadora e patriota
–, convertendo o vestuário num dever moral. Simultaneamente, o projeto autárquico tentou criar
uma moda puramente italiana, de forma a exaltar o orgulho nacional e o consumo interno. Contudo,
entre a disciplina e a ambição, entre o controlo e a criatividade, o fascismo encontrou os limites do
seu poder: a moda nunca foi totalmente domesticada, e foi precisamente desta tensão que nasceu,
mais tarde, a força e a identidade da moda italiana.
Mafalda Pereira e Petra Gonçalves
Referências:
Falasca-Zamponi, S. (2008). Fascism and Aesthetics.
L'adunata delle donne fasciste (1939). [Filme]. Itália.
Paulicelli, E. (2002). Fashion, the Politics of Style and National Identity in Pre-Fascist and Fascist Italy.
Vaccari, A. (2017). MODA NA AUTARQUIA: POLÍTICAS DE MODA NA ITÁLIA FASCISTA NOS ANOS 1930.
Willson, P. (2022). White blouses in the blackshirt nation: women and uniforms in Fascist italy.doi:10.1080/09612025.2022.2055272




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