Genocídio e limpezas étnicas
Genocídio e limpezas étnicas: Qual é o papel da manipulação da narrativa histórica na justificação ou negação de genocídios e limpezas étnicas?
Introdução:
Numa altura em que assistimos a um genocídio em Gaza e o Tribunal de Justiça
Internacional inicia um processo contra Israel, este artigo procura perceber o papel da
manipulação da narrativa histórica na justificação ou negação de genocídios e limpezas
étnicas, fazendo referência a vários casos históricos.
O conceito “genocídio” surge em 1939, quando o advogado judeu, Raphael Lemkin,
decide que os crimes que estavam a ser cometidos pelos alemães precisavam de um nome
específico que os descrevessem. Segundo a “Convenção para a Prevenção e Punição do
Crime de Genocídio” da ONU, genocídio é a prática de atos com intenção de destruir,
total ou parcialmente, um grupo nacional, étnico, racial ou regional.
Já o termo “limpeza étnica”, provém da palavra sérvio-croata “etnicko ciscenje”, utilizada
na década de 1990 de forma a descrever violações do Direito Internacional humanitário
cometidas no território da antiga Jugoslávia. Apesar de não existir uma definição precisa
deste conceito, pelo facto de a limpeza étnica não ser reconhecida como um crime
independente sob a lei internacional, uma Comissão de Especialistas da ONU definiu-a
num relatório final como sendo “...uma política intencional projetada por um grupo
étnico ou religioso para eliminar, através de meios violentos e aterrorizantes, a população
civil de outro grupo étnico ou religioso de certas áreas geográficas”.
Embora os termos genocídio e limpeza étnica sejam similares, eles são distintos. Assim,
enquanto o principal objetivo do genocídio é a destruição de um grupo étnico, racial ou
religioso, o da limpeza étnica é o estabelecimento de terras etnicamente homogéneas, o
que pode ser alcançado através de diferentes métodos, incluindo o genocídio.
Do Genocídio Arménio aos Conflitos Contemporâneos:
Nesta secção, analisamos vários exemplos tétricos de genocídio e limpeza étnica,
nomeadamente o genocídio arménio, o Holocausto, o genocídio do Ruanda, o genocídio
na Bósnia e o genocídio na Palestina. Através de uma análise crítica destes casos,
pretendemos elucidar a manipulação da narrativa histórica na justificação ou negação de
tais crimes.
O genocídio arménio é um dos exemplos mais flagrantes de violência em massa por parte
de um Estado contra um grupo étnico específico. Ocorrido antes do conceito de genocídio
ser sequer concebido, durante os últimos anos do Império Otomano, de 1915 a 1923, este
genocídio resultou no extermínio sistemático de cerca de 1,5 milhões de arménios,
juntamente com a deslocação de inúmeros outros. As autoridades otomanas, sob o
pretexto da Primeira Guerra Mundial, orquestraram uma campanha de deportação em
massa, marchas forçadas e massacres, com o objetivo de erradicar a população arménia
da sua pátria histórica. Apesar das inequívocas e inúmeras provas que sustentam o
genocídio arménio como facto histórico, a posição negacionista dos sucessivos governos
turcos constitui um exemplo apodítico da perpetuação de uma narrativa falsa e da
distorção de factos históricos por parte de um estado contemporâneo. A posição turca
deve-se sobretudo ao facto de o seu estabelecimento enquanto estado nação ser
intrinsecamente ligado ao genocídio da população arménia.
Quanto ao Holocausto, perpetrado pela Alemanha Nazi durante a Segunda Guerra
Mundial, por ser um dos capítulos mais aviltantes da história da humanidade, é tambem
um dos mais exaustivamente documentados e estudados. Ainda assim, com o
ressurgimento de forças populistas iliberais, ressurgiu também o discurso antissemítico,
um reforçado movimento neonazi e a negação do Holocausto. Assim, tão ou mais
importante do que conhecer os horrores praticados durante o Holocausto, é entender como
tal foi sequer possível, como a humanidade chegou a esse ponto, a fim de reconhecer os
sinais e evitar que a história jamais se repita. A evolução do discurso antissemítico na
Alemanha Nazi caracterizou-se por uma combinação tóxica de preconceitos históricos,
oportunismo político, pseudociência racial, propaganda, discriminação legal e violência.
Esta mistura tóxica de ódio e fanatismo culminou no genocídio sistemático de seis
milhões de judeus e milhões de outras vítimas durante o Holocausto, e como tal, serve
para recordar as consequências devastadoras que podem surgir quando se permite que
estes discursos se disseminem. O Holocausto não é apenas um testemunho das
profundezas da depravação humana, mas também um aviso contra os perigos da
indiferença e da conivência perante a injustiça.
O genocídio do Ruanda de 1994 foi um episódio de violência em massa caracterizado
pelo massacre sistemático de cerca de 800 000 indivíduos de etnia Tutsi, e Hutu e Twa
moderada, durante um período de 100 dias, durante a Guerra Civil do Ruanda, sendo
despoletado pelo assassinato do Presidente Habyarimana. Foi orquestrado por extremistas
Hutus no seio do governo e das forças armadas do Ruanda, que exploraram tensões
étnicas enraizadas nas heranças coloniais e exacerbadas por rivalidades políticas e
disparidades socioeconómicas. Apesar da negação do genocídio ser criminalizada no país,
a negação do genocídio persiste e os esforços para a combater incluem a documentação
dos testemunhos dos sobreviventes e o julgamento dos perpetradores no Tribunal Penal
Internacional para o Ruanda. O genocídio do Ruanda exemplifica a instrumentalização
de narrativas históricas para justificar violência e desumanizar grupos-alvo. As
consequências devastadoras e perenes ainda hoje se fazem sentir na região. Enquanto o
Ruanda continua a debater-se com o seu passado, confrontar a negação e promover a
verdade continua a ser fundamental para a promoção da paz e a prevenção de futuras
atrocidades.
O genocídio bósnio da década de 1990 foi uma tragédia complexa e multifacetada,
motivada por uma pletora de fatores, com particular destaque para as complexidades do
conflito étnico e da distorção histórica. O fervor nacionalista foi fulcral para o lançamento
da campanha de limpeza étnica levada a cabo pelas forças sérvias da Bósnia, durante o
desmembramento da Jugoslávia. Em termos de memória histórica, o genocídio na Bósnia
continua a ser uma questão profundamente debatida. Embora a comunidade internacional
tenha reconhecido as atrocidades cometidas durante o conflito, nomeadamente o
massacre de Srebrenica, que custou a vida a mais de 8.000 homens e rapazes bósnios,
disputas acerca da interpretação da história e da culpabilidade dos diferentes
intervenientes perduram até hoje. Na Bósnia, os esforços para enfrentar o legado do
genocídio e promover a reconciliação têm sido dificultados pela persistência de divisões
étnicas e pela influência contínua de ideologias nacionalistas. De um modo geral, o
genocídio na Bósnia recorda-nos claramente dos perigos do nacionalismo étnico, da
manipulação política e do fracasso da comunidade internacional em evitar atrocidades em
massa. Abordar as causas profundas do conflito, promover a verdade e a reconciliação e
fomentar o diálogo interétnico são passos essenciais para a construção de um futuro mais
pacífico e inclusivo para a região.
Apesar dos inúmeros exemplos de genocídios, limpezas étnicas e crimes contra a
humanidade que pautam tão mórbida e regularidade a história da humanidade, decorrem
hodiernamente atos de atroz desumanidade, nomeadamente o genocídio na Palestina. Este
constitui um caso ímpar de negacionismo, distorção e manipulação de factos e da
memória histórica. A deslocação, a desapropriação e a violência sistemática infligidas ao
povo palestiniano pelo Estado de Israel, e pela comunidade internacional que o capacita,
têm sido objeto de intenso debate e controvérsia. O recente escalar da violência israelita
revelou as limitações do discurso desenvolvido pelos sucessivos governos extremistas de
Benjamin Netanyahu, pois ao atrair atenção para a região, parte significativa da
comunidade internacional, antes indiferente, simpatiza agora com a causa palestiniana e
reconhece a narrativa genocida do governo israelita.
Conclusão:
A manipulação da narrativa histórica sempre foi uma arma utilizada para justificar ou
negar certas ações ou acontecimentos nas Relações Internacionais. Os governos e os
perpetradores recorrem frequentemente à propaganda, à censura e à distorção dos factos
históricos para desviar as críticas, manter o poder e perpetuar a violência contra grupos
marginalizados. Quer seja através de propaganda patrocinada pelo Estado, de
historiografia revisionista ou de negacionismo absoluto, os perpetradores e os seus
simpatizantes procuram distorcer a verdade, fugir à responsabilização e perpetuar
sistemas de opressão. As consequências da distorção histórica estendem-se muito além
do domínio académico, moldando as perceções do público, as agendas políticas e as
perspetivas de reconciliação e justiça.
Esse fenómeno é visível atualmente, na Rússia, onde Putin, a fim de justificar a invasão
na Ucrânia, afirma que o objetivo de Moscovo é “desnazificar” o país vizinho e defender
aqueles que são vítimas de genocídio por parte do ocidente. Contudo, é sabido que o
nazismo, e muito menos o genocídio estão presentes na Ucrânia, apesar de, num período
histórico passado, esse território ter sido dominado pela Alemanha nazi e submetido a tal.
Da mesma forma que esta arma é utilizada para acusar o outro de genocídio, ela é também
usada para negar a sua prática.
De facto, o negacionismo do genocídio de Srebrenica tem aumento cada vez mais nos
sérvios. Segundo uma sondagem de 2016, 66% dos sérvios da República Srpska negam
o genocídio e 74% consideram Radovan Karadzic, condenado pelo TPIJ por “crimes
sistemáticos contra bósnios muçulmanos e croatas”, um herói. Em novembro de 2016, a
primeira-ministra sérvia da altura, Ana Brnabic, afirmou que o massacre de Srebrenica
não foi um genocídio. E ainda, foi proibido o ensinamento do genocídio de Srebrenica
nas escolas por Dodik, antigo presidente da república Srpska.
Já no Médio Oriente, Israel defende-se da acusação de genocídio contra Palestina,
acusando o Hamas de praticar atos genocidas contra Israel e justificando que qualquer
reação por parte de Israel é meramente defensiva.
Contudo, uma coisa não invalida a outra. Ambos podem ter ambições genocidas.
Netanyahu, em declarações, relembrou os israelitas “do que Amaleque vos fez”, nação
que segundo a Bíblia, teria de ser destruída. Além disso, Yoav Gallant justificou o corte
de eletricidade, combustível e comida a Gaza, dizendo que Israel estava a “lutar contra
animais humanos”. Na verdade, o que distingue Israel do Hamas é que um tem capacidade
militar, financeira e apoio internacional suficiente para o exercer e o outro não, além de,
um ser um Estado e o outro uma organização terrorista, não podendo ser condenada por
esse mesmo motivo.
Em cada um destes casos, o genocídio representa um fracasso catastrófico da
humanidade, enraizado numa combinação tóxica de preconceitos, ódio e dinâmicas de
poder político. A análise pormenorizada destas atrocidades é essencial não só para honrar
a memória das vítimas, mas também para compreender os fatores complexos que
contribuem para o genocídio e para trabalhar no sentido de evitar que tais horrores se
repitam no futuro.
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