MERCOSUL: Passado, Presente e Futuro da Integração Regional da América do Sul

 Rita Espadinha

Licenciatura em Ciência Política e Relações Internacionais, 2º Ano - NOVA FCSH

As opiniões expostas neste artigo vinculam exclusivamente os seus autores.



MERCOSUL: Passado, Presente e Futuro da Integração Regional da América do Sul

 

Introdução

Criado em 1991, com o Tratado de Assunção, o MERCOSUL procurava, à semelhança da União Europeia, iniciar o processo de integração por medidas de caráter essencialmente económico.(1) Assim, procurava, através de medidas como a livre circulação de bens, a adoção de uma política comercial comum, a coordenação de políticas macroeconómicas e setoriais e a harmonização da legislação dos vários membros, fortalecer o processo de integração regional.(2)

Inicialmente constituído pela Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai, o MERCOSUL é, hoje, mais de 30 anos depois da sua fundação, um caso de sucesso apenas parcial.(3) Por um lado, a aceleração substancial na liberalização do comércio que se verificou nos primeiros anos da organização resultou na intensificação das relações comerciais entre os países fundadores; por outro lado, o panorama atual está bastante aquém do esperado, pois muitos dos ambiciosos objetivos iniciais estão ainda por conquistar. O projeto de integração regional mostrou-se lento e atribulado, em parte devido á instabilidade política interna dos membros, com destaque para a situação do Brasil, o maior estado-membro em termos de área, população, e PIB,(4) mas também o mais frágil.(5)

O presente artigo pretende fornecer uma descrição simplificada da América do Sul enquanto pano de fundo geográfico do MERCOSUL, da sua conceitualização inicial, das suas perspetivas de futuro e, ainda, numa secção final, a relação do MERCOSUL com a União Europeia, dada a relevância do extremamente antecipado e controverso acordo comercial entre ambas as organizações. Em última análise, procuraremos compreender o papel que o MERCOSUL irá desempenhar no futuro da América do Sul e o que representa para os países que o compõem.

 

América do Sul: O Contexto da Fundação do Mercosul

O continente sul-americano, rico em recursos naturais e diversidade cultural, tem uma história repleta de feitos grandiosos e desafiantes obstáculos. A instabilidade política e económica, juntamente com a desigualdade social e a corrupção, têm sido questões recorrentes em muitos dos seus países – golpes militares, ditaduras, guerras civis, interferências externas nefastas, e a recente onda de movimentos populistas, assolaram muitos países da região. Esta instabilidade é tida como a principal causa de o panorama atual do continente estar consideravelmente aquém das suas teoréticas potencialidades. Neste contexto, o MERCOSUL foi criado para promover a integração económica e facilitar o comércio entre os seus membros, com o objetivo de promover a estabilidade e o desenvolvimento na região.

O Mercosul surge em 1991, após um aumento de políticas económicas neoliberais na década de 80. A sua fundação constituía uma resposta aos desafios enfrentados pelos países sul-americanos. A organização visava promover a integração económica, facilitar o comércio entre os seus membros, e criar um mercado comum. Inicialmente composto pela Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai, o MERCOSUL expandiu-se para incluir a Venezuela em 2006(6), e a Bolívia em 2015(7), estando este ultimo ainda em processo de adesão.

A organização tem enfrentado críticas pela lentidão dos seus progressos e pela falta de consenso entre os seus membros sobre questões-chave, tais como acordos comerciais com outras regiões, o papel da organização na promoção da democracia e dos direitos humanos e até mesmo na inclusão de novos estados-membros, sendo a inclusão da Venezuela um tema de extrema contenção, que resultou na sua suspensão em 2016(8). Apesar disto, progressos na promoção da integração económica e na facilitação do comércio entre os seus membros são inegáveis, mas reduzidos quando comparados com as expectativas e projeções iniciais.

 

Que lugar ocupará o MERCOSUL no futuro do continente sul-americano?

Atualmente, o Mercosul enfrenta novos desafios e oportunidades ao olhar para o futuro. À medida que a economia global continua a evoluir, o MERCOSUL procura posicionar-se como um ator importante na região, e a nível internacional, área em que tem alcançado sucessos relativamente insignificantes(3). Procura ainda promover a interdependência entre os seus membros.

O MERCOSUL, bloco comercial sul-americano, tem o potencial para desempenhar um papel significativo no futuro do continente. Com os seus atuais membros, Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai, o bloco representa uma das maiores economias no mundo, tendo em 2022 o sexto maior PIB mundial(9). Contudo, existe potencial para o bloco se expandir e integrar ainda mais estados, potenciando a sua influência e impacto a nível global.

Um passo potencial para o MERCOSUL é alargar a sua adesão, convidando outros países da região a aderir. A Bolívia já se candidatou à adesão plena, e convites ao Chile, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, e Suriname são opções frequentemente mencionadas. Ao alargar a sua adesão, o MEROCSUL poderia tornar-se um organismo regional mais diversificado e representativo, mas tal medida implica também o risco de dificultar ainda mais o diálogo interno da organização.

Outro passo frequentemente debatido é a adoção de uma moeda comum, semelhante ao Euro na União Europeia. Isto aumentaria a integração económica e facilitaria o comércio entre os estados-membros. No entanto, uma medida como esta implica um nível de compromisso, vontade política e cooperação significativos entre os estados-membros, bem como uma cuidadosa consideração das implicações económicas, e, tendo em conta o contexto atual, a adequação desta medida à situação do MERCOSUL é, no mínimo, questionável.

Finalmente, a fim de alcançar uma maior integração regional, o MERCOSUL poderia explorar a possibilidade de criar um mercado comum com menos barreiras ao comércio, ao investimento e à mobilidade laboral. Isto exigiria um compromisso de harmonização de regulamentos e políticas, e provavelmente enfrentaria desafios e resistência de vários sectores internos dos estados-membros.

Em conclusão, o MERCOSUL tem o potencial para desempenhar um papel importante no futuro da América do Sul. O bloco tem um potencial inegável para se tornar numa força mais influente na região e não só. Contudo, estes passos exigirão uma vontade política e cooperação que não estão, atualmente, garantidos.

 

Relações com a União Europeia

O acordo entre o MERCOSUL e a União Europeia teria uma relevância significativa para Portugal, pois, para além das novas oportunidades de comércio e investimento entre as duas regiões, os fortes laços económicos com o Brasil poderiam ajudar a impulsionar os fluxos comerciais e de investimento entre os dois países. Além disso, a localização estratégica de Portugal como porta de entrada para a Europa poderia torná-lo um destino atrativo para empresas do MERCOSUL que procuram aceder ao mercado europeu. O acordo também ajudaria a reforçar os laços políticos e culturais entre as duas regiões, criando novas oportunidades de cooperação e colaboração.

Contudo, a implementação deste acordo tem enfrentado desafios significativos e as negociações, iniciadas em 2000, estão ainda em curso. Os progressos são lentos e reduzidos e apenas em 2016 as negociações ganharam um carater de seriedade, sendo o acordo finalmente alcançado em 2019. A sua implementação foi, no entanto, suspensa, em parte pela eleição do negacionista climático Jair Bolsonaro à presidência do Brasil, responsável pela grande maioria do território da Amazónia. Os principais obstáculos são, portanto, a oposição de alguns países europeus, que se preocupam com o impacto que este acordo terá nos seus setores agrícolas, bem como as justificadas críticas de grupos ambientalistas e de direitos humanos, que estão preocupados com o impacto extremamente prejudicial que o aumento do comércio terá na floresta tropical amazónica e nas comunidades indígenas.

Embora os requisitos ambientais impostos pela União Europeia sejam necessários para assegurar que o comércio seja conduzido de uma forma ambiental e socialmente responsável, estes podem estar a afastar o MERCOSUL, e o continente sul-americano em geral, da Europa e, ainda que indiretamente, a aproximá-lo da China, que há muito procura ativamente expandir os seus laços comerciais e de investimento com a América do Sul. Os requisitos de sustentabilidade da UE podem, assim, tornar mais difícil para os países do Mercosul comercializar com a Europa.

 

Conclusão

Em conclusão, o MERCOSUL é uma aliança económica e política crucial na América do Sul que tem o potencial necessário para moldar o futuro do continente. A sua conceptualização inicial foi impulsionada pelo desejo de criar um mercado comum que promovesse a integração económica e aumentasse o comércio entre os seus estados-membros. Contudo, atualmente, o MERCOSUL enfrenta uma série de desafios, incluindo desacordos internos e pressões externas de outras potências globais, em especial, a China. Ainda assim, o tão aguardado acordo comercial com a União Europeia representa uma oportunidade significativa para o bloco aprofundar os seus laços económicos com a Europa e reforçar a sua posição no contexto económico mundial. Em última análise, o MERCOSUL desempenhará um papel fundamental no futuro da América do Sul e representa uma plataforma vital para os seus estados-membros colaborarem e alcançarem objetivos comuns a curto, médio e longo prazo.

 

Bibliografia

1.           MERCOSUL - Página oficial [Internet]. [citado 2 de Março de 2023]. Disponível em: https://www.mercosur.int/pt-br/

2.           Objetivos do MERCOSUL - MERCOSUL [Internet]. [citado 2 de Março de 2023]. Disponível em: https://www.mercosur.int/pt-br/quem-somos/objetivos-do-mercosul/

3.           30 Years of Mercosur – Status Quo and Future Integration Steps | Publication | Econpol Europe [Internet]. [citado 2 de Março de 2023]. Disponível em: https://www.econpol.eu/opinion_45

4.           World Bank Open Data | Data [Internet]. [citado 2 de Março de 2023]. Disponível em: https://data.worldbank.org/

5.           These are the world’s most fragile states in 2019 | World Economic Forum [Internet]. [citado 2 de Março de 2023]. Disponível em: https://www.weforum.org/agenda/2019/04/most-fragile-states-in-2019-yemen/

6.           Protocolo de Adesão da República Bolivariana da Venezuela ao MERCOSUL - MERCOSUR [Internet]. [citado 2 de Março de 2023]. Disponível em: https://www.mercosur.int/documento/protocolo-de-adesao-da-republica-bolivariana-da-venezuela-ao-mercosul/

7.           Protocolo de Adesão do Estado Plurinacional da Bolívia ao MERCOSUL - MERCOSUR [Internet]. [citado 2 de Março de 2023]. Disponível em: https://www.mercosur.int/documento/protocolo-de-adesao-do-estado-plurinacional-da-bolivia-ao-mercosul/

8.           Decisão sobre a suspensão da Venezuela no MERCOSUL - MERCOSUL [Internet]. [citado 2 de Março de 2023]. Disponível em: https://www.mercosur.int/pt-br/decisao-sobre-a-suspensao-da-republica-bolivariana-da-venezuela-no-mercosul/

9.            World Economic Outlook Database, October 2022 [Internet]. [citado 2 de Março de 2023]. Disponível em: https://www.imf.org/en/Publications/WEO/weo-database/2022/October

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