Atletismo no Quénia



João Rocha

Licenciatura em Ciência Política e Relações Internacionais, 3º Ano - NOVA FCSH

As opiniões expostas neste artigo vinculam exclusivamente os seus autores.


Atletismo no Quénia

Abstract:

             Num meio-fundo e fundo dominado internacionalmente pelo Quénia, será que a globalização tem impacto nesta posição? Este artigo incide na história do atletismo do Quénia, na sua importância ao país e nos impactos que tem nos atletas como na população local. Recorre a estudos feitos que incidem sobre o Este africano e especificamente no Quénia, como também em estudos meramente teóricos sobre a noção de globalização, de cosmopolitismo e, de uma forma superficial, sobre a teoria crítica das Relações Internacionais. Esta última parte teórica é depois aplicada à situação do Quénia de modo a perceber de que forma a globalização impacta a prática do atletismo nesta nação.


Introdução

           O tema deste artigo vai incidir sobre o atletismo no Quénia, uma vez que apenas se fala do ranking mundial que este país tem no mundo do atletismo e não como é que este consegue lá chegar. Neste sentido, a pergunta de partida é: de que forma a globalização impacta a prática do atletismo no Quénia?

            Nesta lógica, o objetivo deste estudo consiste em tentar explicar a realidade do atletismo no Quénia e, através de uma abordagem crítica, perceber o que é a globalização e argumentar em como é possível ver os impactos e transformações causados pela globalização neste país. Para isso, recorri a autores que considero que sejam importantes, uma vez que, através de entrevistas, estudos de campo e estudos na história do mundo do atletismo e do Quénia, tocam em assuntos que são pouco falados como a ocidentalização e capitalização do atletismo, a alteração das mentalidades dos atletas quenianos ao longo dos últimos anos e as desigualdades que existem no mundo do atletismo.

            Neste sentido, começo com a explicação do fenómeno do atletismo no Quénia, onde falo, de forma resumida, do percurso do Quénia e a sua ascensão até ao domínio que detém em muitas modalidades do atletismo regional e internacional. Nessa primeira parte, dou atenção a alguns problemas que o atletismo queniano se deparou ao longo dos anos e o impacto interno desta modalidade tanto a nível sociocultural como a nível económico

            Por sua vez, a segunda parte incide sobre a abordagem teórica aplicada à globalização. É falado da contestação que há na comunidade científica na definição deste conceito. De seguida, há um aprofundamento sobre conceito de cosmopolitismo e a sua importância neste tema. E, por fim, são aplicadas as consequências da globalização neste país.       


O fenómeno do Atletismo no Quénia

O fenómeno do atletismo no Quénia é realmente um dos aspetos que destaca o país a nível global. As raízes desta modalidade neste país estão presentes no hábito de uma era onde o atletismo não era considerado como um desporto, onde as corridas nas montanhas e nas planícies do Leste africano eram o hábito nas populações daquela região como forma de caça, defesa, luta e de até rituais (Bale & Sang, 1996).

Desta forma, conseguimos perceber que o Quénia já tinha na sua população um histórico de corrida inserido na sua cultura, antes da chegada dos europeus ao continente africano (Bale & Sang, 1996). Após a colonização do Quénia, começou a haver a perpetuação das tradições imperiais pelas novas elites políticas sobre as práticas culturais, incluindo o desporto, e algumas perspetivas culturais nativas caíram em desuso (Bale & Sang, 1996).  Nos anos 50 do século XX, começou-se a assistir ao aparecimento de atletas das colónias britânicas nos Commonwealth Games e nos Jogos Olímpicos (Bale & Sang, 1996). A partir do aparecimento de atletas quenianos em provas de maior destaque e fora do Quénia, o Quénia começou a sua jornada na ascensão para obter o título da atualidade como um dos países dominadores das modalidades de meio-fundo e fundo no atletismo mundial.

Esta ascensão para uma das potências mundiais nestas modalidades teve algumas críticas na altura. No início da participação queniana em provas em Londres e em competições internacionais havia uma retórica racista contra os atletas quenianos, que eram vistos como inferiores em comparação aos atletas brancos britânicos. Com a sua fama neste ramo a aumentar, começaram a ser acusados a terem uma boa performance por causa do fator da altitude, quando na verdade era usado apenas para dar a ideia que os atletas quenianos estavam em vantagem em comparação aos outros países graças a esse fator, como é o caso dos Jogos Olímpicos, na Cidade do México, em 1968 (Bale & Sang, 1996). A partir de 1968 começou a rápida emergência do Quénia como uma potência do atletismo, passando a ser considerado como o berço dos corredores de classe mundial e como o epicentro do mundo do “endurance” (Jarvie & Sikes, 2012).

Desta forma, é importante destacar a importância do desporto para uma nação, como o exemplo do Quénia. Primeiramente, o desporto é importante porque permite que haja uma união do país em prol do orgulho nacional, no caso do Quénia, o sucesso no desporto faz com que, a nível étnico, os conflitos tribais desapareçam de forma temporária num país tão heterogéneo (Bale & Sang, 1996) – como também funciona como ferramenta para a integração e coexistência da população (Busolo, 2016). Por outro lado, o desporto permite também que seja transmitida a imagem de força nacional ao público internacional (Bale & Sang, 1996). No entanto, ainda não é dada a importância devida ao desporto no Quénia (Busolo, 2016) e, a nível global, as grandes competições internacionais têm reproduzido e sustentado padrões de poder sociais, políticos, ideológicos e económicos desiguais (Jarvie & Sikes, 2012).

Dito isto, será que o atletismo tem um impacto na população do Quénia? O atletismo tem, de facto, um impacto na população do Quénia. Esta modalidade tem tido um importante papel na promoção da indústria do turismo neste país (Busolo, 2016), como também, permite que os atletas de elite consigam fomentar a economia de onde vivem com o financiamento que recebem dos seus patrocínios como também dos prémios que obtêm (Jarvie & Sikes, 2012). Grant Jarvie e Michelle Sikes (2012) ainda mencionam que o rendimento obtido através da corrida profissional tem o potencial para contribuir para a redução da pobreza das comunidades nos planaltos quenianos, ou seja, permite a que exista uma melhoria das condições de vida das populações dessas regiões.

Neste sentido, o atletismo e os atletas quenianos são considerados como uns dos melhores nas modalidades de meio-fundo e fundo graças às variadas provas a decorrer em todas as partes do mundo (Jarvie & Sikes, 2012) e, também graças às medalhas que os atletas ganham quando representam o país, o que permite uma projeção do país no plano mundial (Bale & Sang, 1996).


Globalização

Depois de ter lido sobre o fenómeno do atletismo no Quénia, percebi que a globalização teve e tem um impacto ambivalente neste país. Disto isto, tem de ser feita uma abordagem teórica sobre este efeito.

Assim, a globalização é um conceito que não tem uma definição universal e consensual dentro da comunidade (Hay, 2013) e que continua a incitar controvérsias dentro, e até para além, da academia científica (Held & McGrew, 2007). Tendo em conta o leque de conceitos atribuídos a este conceito, eu decidi que a definição que melhor se aplica à situação do atletismo no Quénia é a de Held e McGrew (2007) da qual os autores defendem que a globalização denota uma intensificação das relações sociais e interações das quais eventos distantes adquirem impactos muito localizados e vice-versa - envolvendo, também, uma alteração de escala das relações sociais, desde a esfera económica à esfera de segurança. Dito isto, estes autores (2007) ainda destacam que a globalização pode ser entendida como um processo histórico caracterizado por 4 aspetos. Primeiro, por um alargamento de atividades sociais, políticas e económicas através das fronteiras políticas para que eventos, decisões e atividades em uma região do mundo possam ter significado para indivíduos e comunidades em regiões distantes do globo, defendido também por Anthony Giddens (1990). De seguida, por uma intensificação da interconexão em quase todas as esferas da existência social (desde a social à ecológica). Terceiramente, por uma aceleração do ritmo das interações transfronteiriças e processos. E, por fim, por um crescimento extenso, intenso e rápido das interações globais associado ao aprofundamento das relações do local com o global, criando um crescimento da consciência coletiva ou consciência do mundo como um espaço social partilhado (Held & McGrew, 2007).

Como foi referido no início do parágrafo anterior, existe discórdia em relação ao conceito de globalização. Por sua vez, esta discórdia está representada em dois eixos: o teórico e o ético. O primeiro representa a contestação da hegemonia intelectual sobre o conceito de globalização nas ciências socias e é descritivo, analítico e teórico. O segundo preocupa-se com os valores e anexos normativos, ou seja, se no âmbito da ética, a globalização, é para ser defendida, transformada ou rejeitada (Held & McGrew, 2007). Dito isto, estes dois eixos juntos definem um espaço conceptual para pensar nas divergências sobre o debate da globalização (Held & McGrew, 2007) o que, nas variadas teorias das relações internacionais, cada autor tem as suas diferenças entre si, ou não, mesmo se estiverem dentro da mesma escola teórica (Hay, 2013).

No contexto do Quénia, a globalização permitiu que muitos atletas, graças ao seu talento no desporto conseguissem obter bolsas de universidades dos Estados Unidos da América oferecidas com o intuito de aumentar o prestígio da instituição a nível nacional (Bale & Sang, 1996). A globalização permitiu também a aproximação em termos de tempo e de espaço do Quénia ao resto do mundo (Bale & Sang, 1996), o que levou a muitos atletas, numa época em que o atletismo não era ainda uma profissão, a optarem por seguir uma carreira de elite de forma a terem a oportunidade de viajar para fora do país (Jarvie & Sikes, 2012). Neste sentido, a globalização conseguiu mudar as motivações dos atletas quenianos. O atletismo, começou a ser visto como uma via possível à ascensão social e à melhoria das condições de vida do(a) atleta e da sua família em deterioração das aspirações de atletas mais jovens que na sua altura de melhor rendimento em provas, praticavam atletismo apenas por prazer (Jarvie & Sikes, 2012).

Dito isto, basta acontecer uma flutuação no preço dos prémios a serem atribuídos aos vencedores das provas ou uma recessão económica, para impactar a vida desses mesmos atletas, pois muitos destes têm apenas o atletismo como fonte de rendimento(Jarvie & Sikes, 2012). Sendo assim possível ver o que foi dito num dos aspetos da definição dada por Held e McGrew (2007), que consiste no impacto que um acontecimento de uma região tem sobre outra. Ainda é possível ver que a globalização desportiva tem muitas semelhanças à globalização económica.

Um conceito que, a meu ver, importa neste assunto é o de cosmopolitismo de Andrew Linklater (2006). Este autor defende o cosmopolitismo como o princípio que cada comunidade política enfrenta de tentar assegurar que as suas ações não devem de prejudicar outras sociedades, futuras gerações, espécies não humanas e o ambiente natural que se encontra como um meio comum a todos (Linklater, 2006). E, ainda defende que a promoção de uma consciência global que ajuda a assegurar a unificação tecnológica e económica da raça humana é um dos maiores desafios políticos e morais da atualidade (Linklater, 2006). Este conceito mostra-se importante, porque aplicado ao caso do Quénia, é visível que com a globalização apesar de ajudar os atletas a ganhar rendimento e a melhorar as suas condições de vida, continua a haver uma falta de infraestruturas de apoio aos atletas causando grandes dificuldades para voltar a modificar as motivações do atletas em relação ao atletismo, ou seja, praticarem-no por prazer e não apenas porque conseguem obter um rendimento avultado se se tornarem atletas de elite (Jarvie & Sikes, 2012). E, também, tem que haver uma preocupação em conseguir-se garantir condições de bem-estar, no sentido em que conseguimos ver as condições em que atletas de países do Norte Global vivem em comparação com as dos atletas de países do Sul Global, como o caso do Quénia que muitas vezes sobrevivem à base de patrocínios e que, sem eles, não conseguiam continuar com os seus treinos.

Até que ponto é que a globalização impacta a prática do atletismo no Quénia? Consegue ser benéfica para o país porque consegue atrair investimento de grandes empresas de desporto, como a Nike (Bale & Sang, 1996). Permite, também, que seja o host de provas internacionais, como campeonatos mundiais (Busolo, 2016). E, ajuda a projetar o seu país com os títulos que vai obtendo (Bale & Sang, 1996). No entanto, consegue ser prejudicial porque com a oferta de bolsas para estudar fora do país (Bale & Sang, 1996) e com a existência de países onde o apoio e financiamento ao desporto é melhor, faz com que haja uma saída de atletas do Quénia para esses mesmo países acabando por não voltar, havendo assim um “muscle drain” (Busolo, 2016) – conseguindo assim beneficiar disto os países que recebem os atletas e não o Quénia, pois os atletas quenianos acabam por se naturalizar no país para o qual escolheram ou foram convidados e competir a representar o seu novo país.

Neste sentido, consegue-se analisar que a globalização permite a emancipação (Roach, 2013), como a possibilidade de os atletas conseguirem tentar provocar uma mudança social de si e do ambiente que os rodeia ao entrar no atletismo e, que sem a globalização talvez nunca seria posto tanto esforço no desporto como acontece na realidade (Jarvie & Sikes, 2012). No entanto, a globalização também pode continuar a perpetuar as situações de desigualdade, porque continua a haver uma desigualdade nos ganhos que provêm da globalização (Roach, 2013), visível na não alteração das condições do atletismo no Quénia e na manutenção da visão capitalista do atletismo que leva à fuga de atletas para o estrangeiro (Bale & Sang, 1996) mas que pelo menos consegue dar aos atletas uma possibilidade de determinar o seu bem-estar e oportunidades de vida (Jarvie & Sikes, 2012).


Conclusão

            Desta forma, consegue-se ver que a globalização é realmente capaz de trazer impactos positivos para os atletas, como a melhoria das condições de vida dos mesmos, mas também consegue trazer impactos negativos para o Quénia, como uma muscle brain e, consequentemente, a perda da sua supremacia no ramo do atletismo de fundo e meio-fundo.

            Apesar da divergência de opiniões sobre o conceito de globalização, foi possível encontrar uma que se aplicava ao tema escolhido e que melhor abrangia os vários níveis deste fenómeno, uma vez que também afeta o atletismo no Quénia em vários fatores. Neste sentido, foi possível ver que sem a globalização o Quénia não seria a potência desportiva que é, mas que também graças à globalização o Quénia continua a enfrentar diversos problemas que o impede de evoluir.

As questões enunciadas levantam possibilidades de investigação mais profundas sobre formas de como o Quénia, e outros países que se encontram em posições semelhantes, deviam conseguir combater a desigual distribuição dos frutos da globalização, como também uma melhor forma de salvaguardar o património cultural nacional.


Bibliografia

Bale, J., & Sang, J. (1996). Kenyan Running: Movement Culture, Geography, and Global Change. Frank Cass & CO. LTD.

Busolo, M. E. (2016). The Role of Sports Diplomacy in African International Relations: The Case of Kenya [Thesis, University of Nairobi]. http://erepository.uonbi.ac.ke/handle/11295/98554

Giddens, A. (1990). The Consequences of Modernity. Polity Press.

Hay, C. (2013). International Relations Theory and Globalization. Em T. Dunne, M. Kurki, & S. Smith (Eds.), International Relations Theories (3.a ed., pp. 287–305). Oxford University Press.

Held, D., & McGrew, A. (2007). Globalization / Anti-Globalization: Beyond the Great Divide. Polity Press.

Jarvie, G., & Sikes, M. (2012). Running as a resource of hope? Voices from Eldoret. Review of African Political Economy, 39(134), 629–644.

Linklater, A. (2006). Cosmopolitanism. Em A. Dobson & R. Eckersley (Eds.), Political Theory and the Ecological Challenge (pp. 109–127). Cambridge University Press.

Roach, S. C. (2013). Critical Theory. Em T. Dunne, M. Kurki, & S. Smith (Eds.), International Relations Theories (3.a ed., pp. 171–185). Oxford University Press.

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