Atletismo no Quénia
João Rocha
Licenciatura em Ciência Política e Relações Internacionais, 3º Ano - NOVA FCSH
As opiniões expostas neste artigo vinculam exclusivamente os seus autores.
Atletismo no Quénia
Abstract:
Introdução
Por sua vez, a segunda parte incide sobre a abordagem teórica aplicada à globalização. É falado da contestação que há na comunidade científica na definição deste conceito. De seguida, há um aprofundamento sobre conceito de cosmopolitismo e a sua importância neste tema. E, por fim, são aplicadas as consequências da globalização neste país.
O fenómeno do Atletismo no Quénia
O
fenómeno do atletismo no Quénia é realmente um dos aspetos que destaca o país a
nível global. As raízes desta modalidade neste país estão presentes no hábito de
uma era onde o atletismo não era considerado como um desporto, onde as corridas
nas montanhas e nas planícies do Leste africano eram o hábito nas populações
daquela região como forma de caça, defesa, luta e de até rituais (Bale & Sang, 1996).
Desta
forma, conseguimos perceber que o Quénia já tinha na sua população um histórico
de corrida inserido na sua cultura, antes da chegada dos europeus ao continente
africano (Bale & Sang, 1996). Após a colonização do Quénia, começou a
haver a perpetuação das tradições imperiais pelas novas elites políticas sobre
as práticas culturais, incluindo o desporto, e algumas perspetivas culturais
nativas caíram em desuso (Bale & Sang, 1996). Nos anos 50 do século XX, começou-se a
assistir ao aparecimento de atletas das colónias britânicas nos Commonwealth
Games e nos Jogos Olímpicos (Bale & Sang, 1996). A partir do aparecimento de atletas
quenianos em provas de maior destaque e fora do Quénia, o Quénia começou a sua
jornada na ascensão para obter o título da atualidade como um dos países
dominadores das modalidades de meio-fundo e fundo no atletismo mundial.
Esta
ascensão para uma das potências mundiais nestas modalidades teve algumas
críticas na altura. No início da participação queniana em provas em Londres e
em competições internacionais havia uma retórica racista contra os atletas
quenianos, que eram vistos como inferiores em comparação aos atletas brancos
britânicos. Com a sua fama neste ramo a aumentar, começaram a ser acusados a
terem uma boa performance por causa do fator da altitude, quando na verdade era
usado apenas para dar a ideia que os atletas quenianos estavam em vantagem em
comparação aos outros países graças a esse fator, como é o caso dos Jogos
Olímpicos, na Cidade do México, em 1968 (Bale & Sang, 1996). A partir de 1968 começou a rápida emergência
do Quénia como uma potência do atletismo, passando a ser considerado como o
berço dos corredores de classe mundial e como o epicentro do mundo do “endurance”
(Jarvie & Sikes, 2012).
Desta
forma, é importante destacar a importância do desporto para uma nação, como o
exemplo do Quénia. Primeiramente, o desporto é importante porque permite que
haja uma união do país em prol do orgulho nacional, no caso do Quénia, o
sucesso no desporto faz com que, a nível étnico, os conflitos tribais
desapareçam de forma temporária num país tão heterogéneo (Bale & Sang, 1996) – como também funciona como ferramenta
para a integração e coexistência da população (Busolo, 2016). Por outro lado, o desporto permite
também que seja transmitida a imagem de força nacional ao público internacional
(Bale & Sang, 1996). No entanto, ainda não é dada a
importância devida ao desporto no Quénia (Busolo, 2016) e, a nível global, as grandes competições
internacionais têm reproduzido e sustentado padrões de poder sociais,
políticos, ideológicos e económicos desiguais (Jarvie & Sikes, 2012).
Dito
isto, será que o atletismo tem um impacto na população do Quénia? O atletismo
tem, de facto, um impacto na população do Quénia. Esta modalidade tem tido um
importante papel na promoção da indústria do turismo neste país (Busolo, 2016), como também, permite que os atletas de
elite consigam fomentar a economia de onde vivem com o financiamento que
recebem dos seus patrocínios como também dos prémios que obtêm (Jarvie & Sikes, 2012). Grant
Jarvie e Michelle Sikes (2012) ainda
mencionam que o rendimento obtido através da corrida profissional tem o
potencial para contribuir para a redução da pobreza das comunidades nos planaltos
quenianos, ou seja, permite a que exista uma melhoria das condições de vida das
populações dessas regiões.
Neste
sentido, o atletismo e os atletas quenianos são considerados como uns dos
melhores nas modalidades de meio-fundo e fundo graças às variadas provas a
decorrer em todas as partes do mundo (Jarvie & Sikes, 2012) e, também graças às medalhas que os
atletas ganham quando representam o país, o que permite uma projeção do país no
plano mundial (Bale & Sang, 1996).
Depois
de ter lido sobre o fenómeno do atletismo no Quénia, percebi que a globalização
teve e tem um impacto ambivalente neste país. Disto isto, tem de ser feita uma
abordagem teórica sobre este efeito.
Assim,
a globalização é um conceito que não tem uma definição universal e consensual
dentro da comunidade (Hay, 2013) e que continua a incitar controvérsias
dentro, e até para além, da academia científica (Held & McGrew, 2007). Tendo em conta o leque de conceitos
atribuídos a este conceito, eu decidi que a definição que melhor se aplica à
situação do atletismo no Quénia é a de Held e McGrew (2007) da qual os autores defendem que a
globalização denota uma intensificação das relações sociais e interações das
quais eventos distantes adquirem impactos muito localizados e vice-versa - envolvendo,
também, uma alteração de escala das relações sociais, desde a esfera económica
à esfera de segurança. Dito isto, estes autores (2007) ainda destacam que a globalização pode
ser entendida como um processo histórico caracterizado por 4 aspetos. Primeiro,
por um alargamento de atividades sociais, políticas e económicas através das
fronteiras políticas para que eventos, decisões e atividades em uma região do
mundo possam ter significado para indivíduos e comunidades em regiões distantes
do globo, defendido também por Anthony Giddens (1990). De seguida, por uma intensificação da
interconexão em quase todas as esferas da existência social (desde a social à
ecológica). Terceiramente, por uma aceleração do ritmo das interações
transfronteiriças e processos. E, por fim, por um crescimento extenso, intenso
e rápido das interações globais associado ao aprofundamento das relações do
local com o global, criando um crescimento da consciência coletiva ou
consciência do mundo como um espaço social partilhado (Held & McGrew, 2007).
Como
foi referido no início do parágrafo anterior, existe discórdia em relação ao
conceito de globalização. Por sua vez, esta discórdia está representada em dois
eixos: o teórico e o ético. O primeiro representa a contestação da hegemonia
intelectual sobre o conceito de globalização nas ciências socias e é
descritivo, analítico e teórico. O segundo preocupa-se com os valores e anexos
normativos, ou seja, se no âmbito da ética, a globalização, é para ser
defendida, transformada ou rejeitada (Held & McGrew, 2007). Dito isto, estes dois eixos juntos
definem um espaço conceptual para pensar nas divergências sobre o debate da globalização
(Held & McGrew, 2007) o que, nas variadas teorias das relações internacionais, cada autor
tem as suas diferenças entre si, ou não, mesmo se estiverem dentro da mesma
escola teórica (Hay, 2013).
No
contexto do Quénia, a globalização permitiu que muitos atletas, graças ao seu
talento no desporto conseguissem obter bolsas de universidades dos Estados
Unidos da América oferecidas com o intuito de aumentar o prestígio da
instituição a nível nacional (Bale & Sang, 1996). A globalização permitiu também a
aproximação em termos de tempo e de espaço do Quénia ao resto do mundo (Bale & Sang, 1996), o que levou a muitos atletas, numa época
em que o atletismo não era ainda uma profissão, a optarem por seguir uma
carreira de elite de forma a terem a oportunidade de viajar para fora do país (Jarvie & Sikes, 2012). Neste sentido, a globalização conseguiu
mudar as motivações dos atletas quenianos. O atletismo, começou a ser visto
como uma via possível à ascensão social e à melhoria das condições de vida
do(a) atleta e da sua família em deterioração das aspirações de atletas mais
jovens que na sua altura de melhor rendimento em provas, praticavam atletismo
apenas por prazer (Jarvie & Sikes, 2012).
Dito
isto, basta acontecer uma flutuação no preço dos prémios a serem atribuídos aos
vencedores das provas ou uma recessão económica, para impactar a vida desses
mesmos atletas, pois muitos destes têm apenas o atletismo como fonte de rendimento(Jarvie & Sikes, 2012). Sendo assim possível ver o que foi dito
num dos aspetos da definição dada por Held e McGrew (2007), que consiste no impacto que um
acontecimento de uma região tem sobre outra. Ainda é possível ver que a
globalização desportiva tem muitas semelhanças à globalização económica.
Um
conceito que, a meu ver, importa neste assunto é o de cosmopolitismo de Andrew
Linklater (2006). Este autor defende o cosmopolitismo como
o princípio que cada comunidade política enfrenta de tentar assegurar que as
suas ações não devem de prejudicar outras sociedades, futuras gerações,
espécies não humanas e o ambiente natural que se encontra como um meio comum a
todos (Linklater, 2006). E, ainda defende que a promoção de uma
consciência global que ajuda a assegurar a unificação tecnológica e económica
da raça humana é um dos maiores desafios políticos e morais da atualidade (Linklater, 2006). Este conceito mostra-se importante,
porque aplicado ao caso do Quénia, é visível que com a globalização apesar de
ajudar os atletas a ganhar rendimento e a melhorar as suas condições de vida,
continua a haver uma falta de infraestruturas de apoio aos atletas causando
grandes dificuldades para voltar a modificar as motivações do atletas em
relação ao atletismo, ou seja, praticarem-no por prazer e não apenas porque
conseguem obter um rendimento avultado se se tornarem atletas de elite (Jarvie & Sikes, 2012). E, também, tem que haver uma preocupação
em conseguir-se garantir condições de bem-estar, no sentido em que conseguimos
ver as condições em que atletas de países do Norte Global vivem em comparação
com as dos atletas de países do Sul Global, como o caso do Quénia que muitas
vezes sobrevivem à base de patrocínios e que, sem eles, não conseguiam
continuar com os seus treinos.
Até
que ponto é que a globalização impacta a prática do atletismo no Quénia?
Consegue ser benéfica para o país porque consegue atrair investimento de grandes
empresas de desporto, como a Nike (Bale & Sang, 1996). Permite, também, que seja o host
de provas internacionais, como campeonatos mundiais (Busolo, 2016). E, ajuda a projetar o seu país com os
títulos que vai obtendo (Bale & Sang, 1996). No entanto, consegue ser prejudicial
porque com a oferta de bolsas para estudar fora do país (Bale & Sang, 1996) e com a existência de países onde o apoio
e financiamento ao desporto é melhor, faz com que haja uma saída de atletas do
Quénia para esses mesmo países acabando por não voltar, havendo assim um “muscle
drain” (Busolo, 2016) – conseguindo assim beneficiar disto os
países que recebem os atletas e não o Quénia, pois os atletas quenianos acabam
por se naturalizar no país para o qual escolheram ou foram convidados e competir
a representar o seu novo país.
Neste
sentido, consegue-se analisar que a globalização permite a emancipação (Roach, 2013), como a possibilidade de os atletas
conseguirem tentar provocar uma mudança social de si e do ambiente que os
rodeia ao entrar no atletismo e, que sem a globalização talvez nunca seria
posto tanto esforço no desporto como acontece na realidade (Jarvie & Sikes, 2012). No entanto, a globalização também pode
continuar a perpetuar as situações de desigualdade, porque continua a haver uma
desigualdade nos ganhos que provêm da globalização (Roach, 2013), visível na não alteração das condições
do atletismo no Quénia e na manutenção da visão capitalista do atletismo que
leva à fuga de atletas para o estrangeiro (Bale & Sang, 1996) mas que pelo menos consegue dar aos
atletas uma possibilidade de determinar o seu bem-estar e oportunidades de vida
(Jarvie & Sikes, 2012).
Conclusão
As
questões enunciadas levantam possibilidades de investigação mais profundas
sobre formas de como o Quénia, e outros países que se encontram em posições
semelhantes, deviam conseguir combater a desigual distribuição dos frutos da
globalização, como também uma melhor forma de salvaguardar o património
cultural nacional.
Bibliografia
Bale, J., & Sang, J. (1996). Kenyan Running: Movement Culture, Geography, and Global Change. Frank Cass & CO. LTD.
Busolo, M. E. (2016). The Role of Sports Diplomacy in African International Relations: The Case of Kenya [Thesis, University of Nairobi]. http://erepository.uonbi.ac.ke/handle/11295/98554
Giddens, A. (1990). The Consequences of Modernity. Polity Press.
Hay, C. (2013). International Relations Theory and Globalization. Em T. Dunne, M. Kurki, & S. Smith (Eds.), International Relations Theories (3.a ed., pp. 287–305). Oxford University Press.
Held, D., & McGrew, A. (2007). Globalization / Anti-Globalization: Beyond the Great Divide. Polity Press.
Jarvie, G., & Sikes, M. (2012). Running as a resource of hope? Voices from Eldoret. Review of African Political Economy, 39(134), 629–644.
Linklater, A. (2006). Cosmopolitanism. Em A. Dobson & R. Eckersley (Eds.), Political Theory and the Ecological Challenge (pp. 109–127). Cambridge University Press.
Roach, S. C. (2013). Critical Theory. Em T. Dunne, M. Kurki, & S. Smith (Eds.), International Relations Theories (3.a ed., pp. 171–185). Oxford University Press.
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