20 Anos do 11 de Setembro: Continuidades e Ruturas no seio das Relações Internacionais



                              Madalena Vinha

Licenciatura em Ciência Política e Relações Internacionais, 3ºAno - NOVA FCSH


As opiniões expostas neste artigo vinculam exclusivamente os seus autores.

Passaram-se 20 anos desde que os jornais e ecrãs de todo o mundo retrataram o sentimento de total perplexidade sobre o 11 de setembro e após os atentados terroristas em Nova Iorque e Washington DC, muito se falou sobre uma possível nova era das Relações Internacionais. E ainda que hoje sejam visíveis os efeitos estratégicos de tais acontecimentos, que mudanças estruturais se verificaram no Sistema Internacional e na distribuição de poder? Quais as consequências estratégicas dos atentados? Como é o mundo vinte anos depois do 11 de setembro?

A 11 de setembro de 2001, os Estados Unidos da América (EUA) viram o país ser atacado por terroristas associados ao grupo extremista islâmico Al-Qaeda. Nesta data, islamitas fundamentalistas raptaram aviões comerciais com os quais cometeram atentados, o principal dos quais consistiu em arremeter dois aviões contra as Torres Gémeas, em Nova Iorque, intentando a sua destruição. Não houve sobreviventes em qualquer um dos voos, tendo morrido no total 2977 pessoas em Nova Iorque, no Pentágono e a bordo do voo United Airlines 93 (in 9/11 Memorial). 

Aquando dos atentados terroristas, “os acontecimentos internacionais eram dominados pela unipolaridade do Sistema Internacional” (Viana, 2011) - quando apenas um estado concentra em si a maior parte dos recursos de poder, exercendo maior influência sobre todos os outros Estados. Como os EUA adotavam políticas isolacionistas, com uma “notável tendência para o unilateralismo” (Viana, 2011), estes atentados deram “início a um período bastante agitado a nível mundial” (Ribeiro, 2004). Assim, a estratégia internacional adotada pelos EUA depois do 11 de setembro indica que a mudança tendeu a prevalecer sobre a continuidade. Tal incentivou o mundo a caminhar cada vez mais para uma Ordem Internacional multipolar, com a pureza do momento unipolar a esfumar-se. A continuidade decorre apenas dos limites do multilateralismo assumidos pela Administração Clinton e resumidos na máxima da Secretária de Estado Madeleine Albright - “multilateral when we can, unileteral when we must” (Gaspar, 2006) -, bem como dos limites do seu respeito pela soberania dos estados. 

 

Relativamente às mudanças observáveis, é possível afirmar que estes atentados expuseram não só a globalização das ameaças, como também a força crescente dos atores não estatais. Ao passo que os acontecimentos associados ao fim da Guerra Fria romperam com a antiga ordem bipolar, alterando a estrutura da distribuição de poder entre as grandes potências mundiais, estes atentados terroristas provocaram consequências estratégicas de ampla magnitude - umas imediatas e outras que, a seu tempo, se foram manifestando. A nova dimensão do terrorismo transnacional (que se expressa na capacidade de atuação a nível global, acentuando dificuldades na prevenção, dissuasão e combate), o seu cariz de ameaça global, o fim da “santuarização” do território dos EUA e afirmação da importância dos conflitos assimétricos a nível da conflitualidade internacional são também exemplos de mudanças observáveis no período do pós-11 de setembro. 

Por outro lado, os acontecimentos do 11 de setembro aceleraram uma profunda mudança no modo como os EUA lidam com as potências nucleares não-aliadas e com os estados que ameaçam tornar-se potências nucleares. Portanto, o pós-11 de setembro trouxe um acrescido desafio para as democracias mundiais, tendo sido o terrorismo transnacional considerado uma das ameaças mais prementes e perigosas para os valores democráticos, o que veio abrir um novo campo no problema securitário. 

Assim sendo, os acontecimentos do 11 de setembro foram também um marco de acentuada mudança na forma como os países ocidentais e as instâncias multilaterais passaram a encarar as suas estratégias de defesa. “A luta antiterrorista tornou-se a primeira prioridade das agendas de segurança” (Viana, 2011), sendo esta uma luta que é, inevitavelmente, longa - veio exigir uma intensa concertação e novas respostas no plano interno dos estados. Mas exige, também, que se garanta um equilíbrio entre liberdade e segurança, valores primários nas sociedades democráticas modernas.  Importa referir que muitas das medidas tomadas na “guerra global contra o terrorismo” não foram isentas de derivas securitárias, o que criou problemas relativos à salvaguarda dos Direitos Humanos. 

Efetivamente, o combate ao terrorismo não se esgota no isolamento e na desarticulação das redes terroristas ou na destruição da sua capacidade criminosa, pelo que requer a adoção de políticas que garantam uma verdadeira cooperação internacional multifacetada capaz de combater o subdesenvolvimento, a ausência do Estado de Direito e de boa governação - contextos em que nascem e proliferam grande parte das lógicas terroristas.

A acrescentar a tudo isto, “a Rússia reemergiu como potência que afirma a sua esfera de influência, da mesma forma que assistimos à emergência de potências de dimensão continental - que viram o seu espaço de influência e relacionamento com os EUA ampliado - crescentes a par da ascensão da China” (Viana, 2011) e do “desgaste” do poder mundial dos EUA, sugere uma redistribuição do poder mundial.  

Apesar de as mudanças mundiais do mundo no pós-11 de setembro serem mais evidentes, não podemos descartar as continuidades, ainda que ténues, que se verificam. Mantém-se, assim, as assimetrias demográficas e de desenvolvimento, a disputa estratégica pelo domínio dos recursos escassos e não renováveis, a crescente propensão para a democratização dos regimes e a emergência de novos polos de poder, a incógnita relativamente ao aprofundamento do processo de integração da Europa e a China continua progressivamente a ascender, na tentativa de alcançar o estatuto de superpotência - “a perceção dominante dos EUA representa a China como uma grande potência emergente, capaz de colocar em causa a preponderância internacional no pós-Guerra Fria” (Gaspar, 2006). 

Concluindo, os eventos terroristas expuseram a vulnerabilidade da então superpotência mundial a ataques com efeitos devastadores sobre populações e infraestruturas económicas e militares. Foram também estes acontecimentos que trouxeram a palco “a Al-Qaeda enquanto um ator geopolítico não-estatal, perspetivado enquanto um movimento político radical que, usando métodos terroristas, tentava alcançar uma solução política unificadora do mundo árabe” (Ribeiro, 2004). Tais acontecimentos terroristas “evidenciaram a deslocação do centro de gravidade das tensões mundiais da Europa para a Ásia” (Gaspar, 2006), bem como evidenciou atores fundamentais, pertencentes a civilizações muito diferentes das do Ocidente, nos anos que se sucederam. 

O futuro da Ordem Internacional poderá assumir, então, uma configuração multipolar, com dois grandes centros de poder - EUA e China. Estes terão a capacidade de determinar as suas regras, procurando fomentar um pressuposto que é útil no garante do equilíbrio sistémico: a delineação de uma orientação política que dê robustez às ideias em torno da “legitimidade hegemónica”. E este equilíbrio dependerá, em grande parte, da Rússia (Cabrita, 2020). 

Portanto, a posição geopolítica que os EUA vão adotar nos próximos anos está dependente da forma como estes cooptarem algumas destas potências para o seu sistema de poder, bem como da” maneira como neutralizarem a capacidade de outras se organizarem com polos de oposição relativamente ao poderio americano” (Ribeiro, 2004).


Comentários

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