Refugiadas do Clima


Beatriz Realinho

Licenciatura em Ciência Política e Relações Internacionais, 3ºAno - NOVA FCSH


As opiniões expostas neste artigo vinculam exclusivamente os seus autores.


    Apesar de as alterações climáticas serem um tema que não é novo continuam a ser um assunto da ordem do dia, sendo imperativa a luta que tem como propósito salvar o clima. O cenário que enfrentamos é cada vez mais caótico e avançamos em contrarrelógio nesta luta que começou tarde.

    Tudo isto se tem intensificado a um nível frenético, onde as catástrofes que outrora eram vistas como naturais e tidas como raras têm vindo a acontecer com mais frequência, reforçando a emergência da ação climática. Desde a Revolução Industrial que o ser humano tem construído uma sociedade com base na exploração excessiva de combustíveis fósseis e extração de recursos naturais, onde o único propósito é o aumento do lucro, alterando e violando constantemente os ecossistemas da Terra como se estes fossem eternos. As consequências da constante produção de capital provocam várias ameaças ao planeta, uma vez que este reage através do derretimento das calotes polares, ondas de calor, aumento do nível das águas do mar, secas, incêndios, inundações, perda de biodiversidade, entre tantos outros problemas que geram conflitos e tensões sociais nas comunidades. Entretanto, as emissões de gases com efeito de estufa continuam a aumentar, deixando comunidades completamente destruídas (especialmente de países menos desenvolvidos) criando uma situação de refugiados pelo clima.

    As mulheres acabam por ser quem mais sofre com a precariedade que advém da crise climática, visto que existe um acentuar da opressão exercida sobre estas, estando na linha da frente de pessoas afetadas. Representam, assim, cerca de 80% dos refugiados climáticos em todo o mundo. A grande parte da força de trabalho mais precário é maioritariamente feminina, sendo que estas ficam também responsáveis pelo trabalho doméstico e a reprodução social. Desta forma, têm a responsabilidade de fornecimento de alimentação e de amparo para com os seus familiares. É devido a esta situação mais frágil que as mulheres, por norma, são quem mais sofre com episódios de seca e poluição, assim como de sobre-exploração da terra, já que se encontram mais expostas.

    Com isto percebemos que, ao existirem ameaças ambientais, as mulheres têm vulnerabilidades únicas e diferentes dos homens, uma vez que ao serem refugiadas climáticas foram sujeitas a uma migração forçada, correndo riscos a nível da sua segurança pessoal e perda de direito ao cuidado de saúde, sendo as principais vítimas de tráfico de seres humanos.

    Para além destes papéis que são atribuídas às mulheres, que são racializadas, estão mais vulneráveis, sofrendo do que se denomina de racismo ambiental. Esta descriminação por meio de injustiças sociais e ambientais que recaem sobre etnias e populações numa posição mais frágil, tomam a forma de ações com uma intenção racista, mas também com ações de impacto social. A luta contra o racismo ambiental tem como propósito alcançar uma sociedade igualitária onde não existam apenas direitos para aqueles que são privilegiados, mas para todos, independentemente da cor, origem ou etnia. Contudo, como consequência deste tipo de medidas são mais uma vez as mulheres que fazem parte de comunidades que se encontram mais submetidas a inundações e envenenamentos por chumbo.

    As alterações climáticas fizeram com que as catástrofes que outrora considerávamos naturais não o continuassem a ser, tendo como consequência riscos mais elevados e sérios para as mulheres, especialmente nos países que ainda se encontram em vias de desenvolvimento. Após um desastre natural as mulheres são aquelas que se encontram mais fragilizadas, sendo privadas de cuidados de saúde, forçadas a uma migração muita das vezes ilegal, tornando-se assim a grande camada dos refugiados climáticos. Esta vulnerabilidade faz com que muitas mulheres em acampamentos de refugiados ou abrigos sofram agressões sexuais. Um ponto a realçar aqui é a situação económica destas mulheres, uma vez que muitas perderam o seu sustento, trabalho, ou então têm poucos estudos, tendo menos probabilidade, relativamente aos homens, de encontrarem novos empregos nas regiões para onde foram deslocadas.

    Outra consequência das alterações climáticas é o afetar das colheitas de uma certa região, criando escassez de alimentos, prejudicando as mulheres que se encontram em estado de gravidez onde não têm acesso aos nutrientes necessários e suficientes nem para elas nem para os bebés. Porém, cada vez mais as mulheres se encontram na linha da frente na luta contra a crise climática e as consequências que esta provoca nelas. Nascem assim, por exemplo, as comunidades de mulheres que praticam uma agricultura de subsistência no qual fazem uso de práticas agrícolas mais resistentes a situações de seca, visando não passarem fome. Ou seja, um pouco por todo o mundo as mulheres são as protagonistas de lutas pela não privatização da água e das sementes, preservação da biodiversidade e de uma agricultura sustentável.


    Kimberlé Crenshaw defende a existência de um feminismo interseccional onde há um cruzar das lutas, isto é, encontram-se interligadas. Esta ideia leva-nos a pensar em como as lutas feministas estão assim associadas ao clima, à luta climática, focando-se com o agora, aquilo que é o mundo real, acreditando-se que a justiça social e o bem-estar das sociedades estão ligadas à sustentabilidade daquela que é a nossa casa.

    É desta forma que a luta pela preservação do planeta é também uma luta feminista, pois é imperativa a libertação das mulheres que se encontram privadas da sua liberdade de ser, de estar e de viver, devido a um capitalismo desenfreado que não olha a meios para atingir os seus fins, tornando a terra num lugar quase inabitável.


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