As Bases Sociais dos Partidos Portugueses: literatura, catalisadores de mudança e variáveis sociodemográficas
Introdução
Ao longo dos últimos anos, as bases sociais dos partidos portugueses sofreram mudanças consideráveis na sua génese. Cientistas políticos como João Cancela e Pedro Magalhães procuraram dissertar estas alterações, tomando como objeto de estudo as últimas eleições legislativas de março de 2025. O artigo desenvolvido pelos
autores aborda as diferenças estruturais dos partidos políticos, explorando fatores internos e externos como possíveis catalisadores das alterações observadas. Face ao exposto, procuraremos, neste artigo, discutir de que modo podemos traçar uma relação causal entre a crise política portuguesa e as alterações sociais nas bases
eleitorais partidárias.
As bases sociais dos partidos em Portugal: o comportamento eleitoral em análise
A esfera internacional encontra-se cada vez mais marcada pelo enfraquecimento dos partidos tradicionais de centro-esquerda e centro-direita. De facto, e em alinhamento com a tendência internacional, torna-se relevante analisar o continente europeu, especialmente devido ao aparecimento e fortalecimento crescente de novas forças políticas de extrema direita e esquerda libertária. Portugal não é uma exceção, e as suas bases eleitorais têm sofrido algumas alterações ao longo dos anos. A literatura recente, alinhada com as conceções de João Cancela e Pedro Magalhães, tem apontado para uma crescente fragmentação eleitoral, visível no sistema partidário português com a ascensão de partidos como o Chega, que ganha força desde 2019, a Iniciativa Liberal (IL) e o Livre. Ora, o crescimento destas forças políticas alterou a dinâmica partidária, que resultou na queda acentuada de partidos como o Bloco de Esquerda (BE) e o Partido Comunista Português (PCP), forças de esquerda radical. Deste modo, torna-se relevante estudar as bases sociais que formam os partidos portugueses e de que forma variáveis sociodemográficas como a idade, o sexo, a escolaridade ou o rendimento têm influenciado as opções de voto em Portugal.
A literatura existente sobre as bases eleitorais identifica uma corrente de pensamento partilhada por autores como Lipset, que advoga que os atributos de natureza social desempenham um papel relevante na definição do voto. No artigo intitulado Cleavage Structures, Party Systems, and Voter Alignment (Lipset & Rokkan, 1967), os autores afirmam que, onde os vínculos a partidos são mais fortes, a volatilidade eleitoral tende a ser menor. De facto, a integridade de um órgão partidário depende da designada party on the ground, pelo que quanto maior o número de militantes e simpatizantes, mais fácil é para o partido se expressar socialmente,
afirmando a sua relevância nos quadros administrativos centrais. É nestes níveis primários que os partidos criam as raízes estruturais que permitem a expansão do aparelho eleitoral. Neste sentido, importa recuperar a relação linear de Lipset, trazendo para o cenário de análise casos de partidos portugueses como o Partido Social Democrata (PSD) que, desde 1987, juntamente com o Partido Socialista (PS), representa mais de dois terços do total dos votos válidos. Mesmo com o crescimento de novos partidos (Chega e a Iniciativa Liberal, por exemplo), um fenómeno
frequentemente documentado na literatura sobre a emergência de novos partidos em Portugal, estes dois partidos centrais continuam a estruturar a maior parte do voto, o que é coerente com a ideia de que um partido que mantém um núcleo duro de eleitores consistente é capaz de resistir às flutuações conjunturais.
Outro ponto de destaque na análise de Lipset é o argumento que atesta que alguns partidos defendem, de forma programática, os interesses de diferentes setores da sociedade. Deste modo, a escolha dos eleitores é o resultado das suas preferências – inerentemente influenciadas pela posição socioeconómica de cada indivíduo. Concomitantemente, estudos sobre as bases sociais do voto em Portugal revelam que as preferências partidárias continuam a refletir, ainda que de forma menos rígida, a posição social objetiva dos eleitores. De facto, revelam-se padrões consistentes de alinhamento entre grupos socioeconómicos e partidos cuja oferta programática melhor corresponde aos seus interesses materiais e simbólicos. Neste sentido, dados recentes relatam que os eleitores mais velhos com rendimentos mais elevados têm uma maior propensão para apoiar partidos de centro-direita, enquanto os grupos socioeconómicos mais desfavorecidos se posicionam junto de partidos cujo pendor do estado de providência é mais acentuado, vulgo, partidos de esquerda (ver artigo publicado em 2025, por Cancela e Magalhães).
Lipset e Rokkan, autores defensores de uma orientação mais sociológica, afirmam que os atributos de natureza social desempenham, ainda hoje, um papel relevante na definição do voto. Na esfera portuguesa, Marco Lisi já tinha analisado relações existentes entre a base social e a escolha de voto: “Os eleitores do PS tendem a ser menos educados do que os eleitores do Bloco, PSD e CDS-PP”, mas “mais instruídos que os do PCP” (Lisi, 2019, p. 48). Por outro, constata que “o BE parece atrair um eleitorado mais novo em relação aos socialistas, enquanto o PS tende a ter um maior apoio das mulheres em relação aos dois partidos da direita” (Lisi,
2019, p. 48). Ainda assim, Cancela e Magalhães procuraram preencher algumas lacunas, atualizando os dados inicialmente concedidos por Lisi. Desta forma, os autores observaram padrões de votos distintos consoante as variáveis analisadas.
Em primeiro lugar, no que se refere à variável Sexo, identificam-se poucas diferenças significativas, mas é importante anotar que as mulheres portuguesas tendem a votar em partidos mais à esquerda. Em segundo lugar, quanto à Idade, os autores informam que os jovens têm menos propensão para o voto, embora dados ainda mais recentes sugiram uma maior mobilização deste grupo em torno de partidos emergentes (Chega, IL, Livre). Em terceiro lugar a Prática Religiosa está associada a uma menor abstenção e a uma maior propensão para voto na coligação PSD/CDS (AD). Em quarto lugar, a Classe Social constitui um fator explicativo, já que os mais desfavorecidos economicamente tendem a votar em partidos que protejam os trabalhadores e obedeçam a mecanismos redistributivos de rendimentos e os menos desfavorecidos preferem um intervencionismo estatal menos acentuado e a redução
dos impostos. É importante notar, contudo, que algumas tendências observadas em outros países europeus, onde pequenos proprietários optam, frequentemente, pela escolha de uma direita radical e populista, não são verificáveis, de forma clara, em Portugal. Ainda assim, e devido ao crescimento acentuado do partido Chega, esta associação poderá ser estudada de forma mais informada posteriormente e com o passar dos anos. Finalmente, é indispensável destacar que a Instrução desempenha um papel central na constituição da base eleitoral de um partido, questão evidenciada, numérica e estatisticamente, pelas tabelas que se encontram em anexo (Figura 1 e Figura 2).
As crises políticas e o realinhamento do voto
Numa perspetiva sistémica, a análise do sistema político é entendida como um processo contínuo de interação entre fatores internos e externos, moldado por fluxos de inputs e outputs. Desta forma, as crises políticas e económicas podem ser conceptualizadas como pressões externas capazes de reconfigurar padrões de apoio eleitoral. Partindo do modelo de Easton, podemos advogar que, quando o feedback recebido é negativo e os outputs governamentais não se ajustam às novas demandas, geram-se momentos de entropia. Estes, em situações particulares de disfunção do sistema, geram ciclos de erosão de apoio, podendo traduzir-se em alterações nas preferências partidárias.
Neste enquadramento, as alterações nas intenções de voto podem ser interpretadas como respostas dos cidadãos ao desempenho do sistema perante a crise. Assim, refletem a forma como o ambiente político pressiona o sistema e condiciona o ciclo de apoios e exigências. Tomando como exemplo empírico desta tese a crise económica portuguesa (2010 e 2014), podemos concluir que o aumento abrupto do desemprego, a deterioração das contas públicas e as exigências dos mercados financeiros serviram de inputs que intensificaram a pressão sobre o sistema político. Quando as respostas governamentais foram avaliadas como insuficientes,
verificou-se uma reconfiguração dos padrões de apoio, evidenciada nas eleições legislativas de 4 de outubro de 2015. De facto, os resultados destacaram a erosão da confiança política e o desgaste direto do governo PSD-CDS abrindo espaço para a inédita solução parlamentar liderada pelo PS, o “governo Geringonça". Neste caso, torna-se evidente o descontentamento com o governo em funções e a notória punição dos incumbentes por parte dos eleitores.
Num registo distinto, as eleições legislativas de 2025, marcaram uma nova crise nacional, desta vez, de índole política. Após uma nova queda do governo minoritário do PSD e na sequência de dois ciclos eleitorais recentes (2019 e 2022), observa-se uma resposta pública diferente. Ao contrário do padrão observado quinze anos antes, não se verificou uma punição direta do governo cessante. Em vez disso, emergiu um realinhamento estrutural marcado pela consolidação de uma terceira força política dominante, o partido Chega. Este fenómeno sugere que, em contextos de volatilidade acumulada, as crises políticas podem deixar de produzir efeitos meramente punitivos e passar a catalisar transformações mais profundas na estrutura
do sistema partidário.
Também nesta ótica, e exortando o estudo que sustenta este artigo, esta evolução pode ser interpretada como uma expressão da crescente diferenciação das bases sociais dos partidos e da recomposição das clivagens que estruturam o comportamento eleitoral. Assim, se há quinze anos a crise económica se traduziu sobretudo numa resposta sancionatória, a crise política contemporânea parece antes intensificar a volatilidade e acelerar processos de realinhamento, contribuindo para a reconfiguração das bases eleitorais e para a emergência de novos polos de
competição.
Conclusão
Em última análise, é possível concluir que as alterações das bases eleitorais dos partidos portugueses continuam a conservar os padrões europeus de forma relativamente estável. Fenómenos contemporâneos externos, como crises económicas e crises políticas, desempenham um fator de destaque nas alterações das intenções de voto, funcionando como fatores de ajuste do sistema para assemelhar a entropia das crises. Assim, as variáveis sociodemográficas, como o sexo, a idade, a existência ou ausência de prática religiosa, a classe social e nível de instrução, continuam a desempenhar um papel central na definição dos padrões de voto e, por consequência, na formação das bases de apoio dos partidos políticos.
Em conjunto, estes resultados sugerem que o sistema partidário português permanece em adaptação contínua, respondendo tanto às transformações sociais de longo prazo, como às pressões imediatas. Desta forma, é imprescindível compreender as mudanças nas bases eleitorais para interpretar corretamente a vitalidade, os desafios e as possibilidades de renovação da democracia portuguesa.
Agradecimentos
Agradecemos ao Professor João Cancela pela disponibilidade em responder às nossas questões e orientar a nossa análise.
Bibliografia
I. Cancela, João, e Pedro C. Magalhães. 2025. “As bases sociais do novo sistema partidário português, 2022–2025.” Publicado a 23 de maio de 2025. Disponível em: https://www.pedro-magalhaes.org/as-bases-sociais-do-novo-sistema-partidario-portugues-2022-2025/
II. Cancela, João, e Pedro Magalhães. 2022. “Bases sociais do voto nas legislativas de 2022.” Pedro‑ Magalhães.org, 17 de fevereiro de 2022. Disponível em: https://www.pedro-magalhaes.org/bases-sociais-do-voto-nas-legislativas-de-2022/
III. Lipset, Seymour Martin, e Stein Rokkan. 1967. Party Systems and Voter Alignments: Cross-National Perspectives. New York: Free Press.
IV. Lisi, Marco, ed. Party System Change, the European Crisis and the State of Democracy. Abingdon: Routledge, 2019.
V. Easton, David. 1957. “An Approach to the Analysis of Political Systems.” World Politics 9, no. 3. Pages 383–400. https://doi.org/10.2307/2008920.
VI. Mainwaring, Scott, e M. Torcal. 2005. "Teoria e institucionalização dos sistemas partidários após a terceira onda de democratização." OPINIÃO PÚBLICA XI (2):249-86.
Artigo realizado por: Joana Barbosa e Júlia Castro



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